Saindo do trabalho me dirijo ao ponto de ônibus. Será que é aqui mesmo onde devo ficar? É a primeira vez que uso essa linha, não quero perguntar ao cara do lado mas preciso ter certeza... Ando mais um pouco, tem duas meninas ali, elas devem saber. "É aqui que passa o Butantã-USP?". Sim, é aqui. Fico posicionada para ver os ônibus que se aproximam. Droga, esqueci o óculos.
Um ônibus azul se aproxima, as meninas olham pra mim ansiosas, sem entender tento ler o que diz no letreiro. Butantã-USP. O motorista pára no meio da rua, entre buzinas e gritos subo em um ônibus vazio. Sento ao lado da janela, próxima à porta. Meu ponto de descida é longe mas minha ansiedade não me deixa ir mais pro fundo.
Não reconheço as ruas por onde estamos passando mas pelo menos sei que não vou parar muito longe de casa. Várias pessoas entram nos próximos pontos, todos os lugares agora estão ocupados. Sinto falta de música, por onde anda mesmo o meu player? Começo a bolar histórias pra cada pessoa que divide o caminho comigo. A gorda que está voltando pra casa, pros seus filhos ranhentos e marido omisso. A menina que vai à faculdade com o colega. O músico que precisa ensaiar. Quantas vezes ainda vou encontrar essas pessoas? Gostaria de ter um caderninho comigo para anotar meus pensamentos, parecem bons na hora, não consigo reproduzi-los depois.
O ônibus faz uma curva e reconheço seu caminho. Agora estou quase perto de casa, já posso me perder.
Odeio pegar ônibus que nunca tomei. Aliás odeio fazer qualquer coisa que nunca tenha feito, fico inseguro demais. Já pensei em procurar um psicólogo, mas acho que já sei o que ele vai dizer, que talvez eu ame minha mãe, que talvez eu seja viado
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