O relógio ticava. Só se ouviam os sons dos teclados, o dele e dos vizinhos. José parou de digitar para observar aquela situação, dezenas de pessoas enfiadas em seus cubículos, com as cabeças baixas, digitando sem parar qualquer coisa que o trabalho obrigava a escrever.
Assim, se deixou levar em devaneios. Ouvia o relógio ticando, os teclados batendo, os saltos das mulheres andando, telefones tocando. Começou a ouvir uma música. De repente ele não estava mais no seu escritório, mas em um grande concerto onde ele era o maestro. Se imaginou regendo todas aquelas pessoas num som único, forte, cheio de emoção. Sentiu na pele tudo isso, sentiu seu coração disparar e as mãos suarem. Amava a música, amava como ela o fazia se sentir.
Seu celular tocou. Era o alarme avisando que era hora de voltar à realidade, enfrentar o trânsito pesado, o ônibus lotado. Respirou fundo tentando esquecer a mulher que o aguardava em casa, tentando imaginar que seria bem recebido, com carinhos e abraços, que eles poderiam conversar sobre o seu dia e ficar à vontade. Não, Maria não era assim.
Como sempre, ele tinha que ter paciência. Foi criado com base na recompensa. Aprendeu que Deus presenteia os bons de coração, e que mesmo na pior das situações temos que ser pacientes. Difícil lição, quase quarenta anos já se passaram e ele ainda não viu a tal recompensa, ou não a percebeu, mas ainda tem esperanças de encontrar seu paraíso antes do fim.
Mais uma vez respirou fundo. Desligou seu computador, arrumou sua pasta e saiu porta a fora, tentando transformar os sons que ouvia em mais uma música, uma trilha sonora para o drama da sua vida.
Releu o texto, corrigiu os erros e pensou se dessa vez teria conseguido desabafar sem desnudar seus sentimentos. Não. Ainda lhe parecia óbvio. Dane-se.
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